Imaginemos uma entrevista fictícia.
O entrevistador pergunta algo que muitos pensam: “Portugal está cheio de criativos vindos de todo o mundo — franceses, americanos, ingleses — a trabalhar remotamente para o estrangeiro, a receber em dólares ou libras e a viver em euros. É, basicamente, o melhor cenário possível. Então porque é que nós, portugueses, não fazemos o mesmo? Porque não trabalhamos mais como freelancers para fora?”
Se fosse eu a responder, diria que há uma mistura de medos e ideias feitas. Parece haver a percepção de que “lá fora” tudo é maior, mais complexo, mais profissional — e que nós não estamos ao nível. Mas a verdade é muito simples: o mundo é igual em todo o lado. Há talento e mediocridade em qualquer geografia, líderes brilhantes e líderes que não fazem ideia do que estão a fazer. Todos os dias me surpreendo com isto.
Acredito também que exista alguma acomodação. Estamos confortáveis, por isso não fazemos o investimento que devíamos nas relações com recrutadores, nem dedicamos tempo ao LinkedIn — sendo que “devíamos” é, claro, relativo. Depois, vem a parte prática e chata: pensar em fiscalidade, fusos horários, contratos ou até na hipótese de abrir atividade noutro país. Só de imaginar a burocracia já muita gente desiste.
Mas esta postura é, na verdade, uma limitação enorme. Temos talento mais do que suficiente. Falamos bem inglês, adaptamo‑nos com facilidade a diferentes culturas e métodos de trabalho. E podíamos ganhar imenso com isso — em todos os sentidos.
Hesitei se deveria escrever este texto, porque o tema me parece óbvio. Porque não trabalhamos para o estrangeiro? Para além de elevarmos a nossa qualidade de vida, aumentamos também a concorrência salarial dentro de Portugal. Se um freelancer pode ganhar 800 euros por dia a trabalhar para Amesterdão, porque aceitar 150 euros por exatamente o mesmo trabalho em Lisboa? Naturalmente, o mercado teria de repensar o que paga.
Resumindo: precisamos de mudar a atitude. Mais confiança, menos receio. Temos de arriscar. De procurar recrutadores, aprender como funcionam outros mercados, lidar com a burocracia que isto implica.
Para citar o hino imortal da BBDO: precisamos de “menos ais, menos ais, menos ais”.
Por Teresa Verde Pinho, Criativa Sénior na AKQA, Portland
(Artigo originalmente publicado na edição n.º 328, Novembro 2023)








