O ano de 2024 ficou marcado por resultados excecionais para o Turismo em Portugal: mais de 30 milhões de visitantes estrangeiros e receitas superiores a 27 mil milhões de euros. Agora, em 2025, o grande desafio é manter esta dinâmica num contexto em que vários sinais de alerta começam a tornar‑se evidentes. O aeroporto de Lisboa, principal porta de entrada do país, opera praticamente no limite da sua capacidade; os preços dos voos continuam a subir, o que pode afetar a procura; e o ambiente económico global está influenciado pelas novas tarifas impostas pelo Governo norte‑americano, cujo impacto real ainda é difícil de antecipar.
Perante estes fatores, a questão que se coloca é: que alternativas tem o sector para continuar a crescer de forma sustentável? Esta foi a reflexão central do mais recente almoço‑debate organizado pela Marketeer, que reuniu representantes de empresas e instituições ligadas ao Turismo. De forma consensual, os participantes identificaram três áreas prioritárias de atuação: atrair visitantes para regiões menos exploradas, prolongar a estadia média e qualificar a oferta para captar turistas com maior capacidade de consumo.
Estadia média e o “peso” do aeroporto de Lisboa
O prolongamento da estadia média surge como uma solução fundamental num cenário em que o aeroporto de Lisboa não consegue absorver muito mais tráfego. Como foi destacado no debate, aumentar o número de noites por visitante tem impacto direto nas dormidas e no consumo global, mesmo sem crescimento no número absoluto de turistas. Além disso, uma grande parte dos passageiros que passam por Lisboa está apenas em ligação e não pernoita no país — no caso dos turistas brasileiros, apenas cerca de 30% ficam em Portugal.
A curto prazo, a situação não deverá mudar substancialmente. O relatório preliminar da ANA aponta para que o novo aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete só verta realidade em meados de 2037. Até lá, será essencial tirar maior partido de outras infraestruturas aeroportuárias nacionais — como Porto, Faro, Madeira e Açores — e ajustar a estratégia de promoção turística, reduzindo o excesso de dependência de Lisboa.
Diversificar o destino e reforçar outras regiões
Nos últimos anos, Portugal consolidou‑se como um destino de referência internacional. Contudo, esse sucesso não elimina lacunas que permanecem evidentes: muitas regiões do país ainda não dispõem de capacidade hoteleira e de mobilidade adequada para receber grandes fluxos turísticos. Diversificar o destino implica mapear oportunidades, melhorar acessibilidades, reforçar a oferta cultural e criar experiências diferenciadas que motivem os visitantes a explorar além dos grandes centros.
O papel do Turismo de Portugal tem sido relevante, sobretudo na captação de novas rotas aéreas para aeroportos fora de Lisboa — um esforço mais dispendioso, mas fundamental para o equilíbrio do sector. A prova mais recente dessa estratégia é a nova rota da United Airlines que, desde maio, passa a ligar Faro a Newark com quatro voos semanais.
Pressão urbana e necessidade de equilíbrio
A tensão crescente entre turismo e residentes em cidades como Lisboa e Porto também foi tema de discussão. O aumento do alojamento local é apontado como um dos principais fatores de desconforto, uma vez que altera a dinâmica dos bairros e afeta a qualidade de vida dos habitantes. Para muitos dos intervenientes, cabe às autarquias gerir este equilíbrio, sobretudo porque beneficiam diretamente das taxas e receitas associadas ao turismo.Em regiões como a Madeira, embora a população seja geralmente mais favorável ao turismo, já se começam a sentir sinais de pressão, sobretudo devido ao aumento consistente de passageiros nos aeroportos locais, que ultrapassaram recentemente a barreira dos cinco milhões de viajantes.
Incerteza económica, aviação e o impacto das tarifas dos EUA
No segmento hoteleiro, 2025 começou de forma positiva, especialmente nos grupos e no mercado MICE, que continua forte. Já no segmento individual, sente‑se maior sensibilidade ao preço, sobretudo em Lisboa durante a época baixa. No Algarve, o desempenho na Páscoa foi positivo, mas concentrado nos três dias principais, com reservas de verão a avançar bem para julho e setembro.O sector enfrenta ainda incertezas relacionadas com a evolução dos preços da aviação e com as tarifas norte‑americanas. O seu impacto será desigual entre mercados, mas poderá influenciar a procura nos Estados Unidos, atualmente o terceiro principal mercado emissor para Portugal.Apesar destas dúvidas, o sentimento geral é de resiliência. O Turismo tem sabido adaptar‑se a cenários adversos e mantém‑se como um dos pilares económicos do país. Como resumiram vários participantes: o desafio não é evitar dificuldades, mas continuar a elevar padrões num sector que vive da excelência.







